Mesmo com a avaliação de sua gestão cada vez mais abalada, prefeito resolve tirar uma semana de folga menos de um ano após suas últimas férias.
Após identificar benefícios da prefeitura da capital paulista, comandada por Fernando Haddad (PT), ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) no financiamento de moradias populares, o Ministério Público do Estado de São Paulo elaborou um documento no qual recomenda que o governo federal não assine novos contratos do programa Minha Casa, Minha Vida com a administração.
A representação, assinada pelo promotor Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, foi anexada a um inquérito que investiga o financiamento habitacional na capital paulista. No texto, o promotor afirma que falta transparência da prefeitura na divulgação do cadastro de inscritos nos programas habitacionais. Em síntese, o MP afirma que a prefeitura mantém o cadastro secreto para beneficiar movimentos que promovem invasões de imóveis públicos e privados – leia-se, o MTST.
No documento, o promotor afirma que o poder público não tem força para coibir a indústria de ocupações. Em função disso, e para evitar os frequentes bloqueios que travam a capital paulista, o prefeito já fez até mesmo promessas para regularizar áreas invadidas caso o Plano Diretor fosse aprovado – algo que de fato ocorreu.
Diante dessa falta de controle administrativo, a população tem reagido nas pesquisas sobre o governo. Na última divulgação do Instituto Datafolha, a gestão de Haddad bateu o próprio recorde de avaliação negativa, com 47% de rejeição entre as 1.047 pessoas entrevistadas, ante 36% do mês de junho.
Entre os muitos motivos que levaram à insatisfação do eleitorado, é possível citar várias medidas prejudiciais à população de baixa renda, como o corte de merenda e professores de clubes-escola, o aumento das filas por vagas em creches e a redução da quantidade de material escolar distribuído na rede municipal.
A insistência de Haddad em manter-se próximo a pessoas envolvidas em escândalos também não ajuda. Ele nomeou um vereador condenado por improbidade, uma ex-secretária processada também por improbidade e a ex-ministra que foi demitida após farra com cartão corporativo. Além disso, o prefeito deixou de cumprir várias promessas feitas durante a campanha; entre elas, o “Arco do Futuro”, que era um das principais.
No entanto, mesmo após o recorde negativo, Haddad resolveu pedir afastamento para tirar férias e descansar, algo que já fez há menos de um ano, com apenas dez meses de mandato, a fim de ir à Itália comemorar seus 25 anos de casamento. À época, justificou-se afirmando que a ideia era estar presente em janeiro, quando seria mais necessário em função do período de chuvas – que não ocorreu.
De fato, não havia como prever que o mês historicamente mais chuvoso na capital paulista enfrentaria uma seca ímpar. Mas o bom senso entenderia que uma nova folga do prefeito só faria sentido após ao menos a conclusão das eleições em curso. Nem os próprios aliados compreendem bem a tática adotada pelo prefeito quando pouco ou nada faz em defesa da própria imagem. Em recente entrevista, no entanto, reclamou de perseguição da mídia,colocando-se na posição de injustiçado. Ignora Haddad que o principal responsável pelo opinião que os eleitores têm dele é o seu próprio trabalho. Todavia, nada mais natural para um partido que sempre enxergou na imprensa uma inimiga a ser domada passar a ter problemas de comunicação com a população que usufrui de seus projetos. Uma postura mais aberta ao diálogo teria engajado o paulistano naquilo que a prefeitura ainda faz de bom. É o que os opositores do PT fazem com certa maestria há pelo menos duas décadas. É o que o partido não compreende ou até mesmo aceita. Mais admiração para com a liberdade de expressão só levaria benefícios ao que pretende colocar em prática a esquerda no Brasil. Mas talvez Caetano Veloso esteja certo quando diz que o esquerdista vê nela uma espécie de “capricho burguês” de menor importância. O que sobra dessa atitude é muita reclamação e prejuízo nas urnas. A reclamação já começou. Mas, no caso de Haddad, as urnas só responderão em 2016.
